IGNOTI NULLA CUPIDO – "Ninguém ama o que não conhece". (Ovídio – poeta romano)

Monthly Archives: Outubro 2012

O POVO DE DEUS NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO

A imagem do Povo de Deus ganhou maior destaque a partir do Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, trazendo a tona uma imagem bíblia a respeito da Igreja de Cristo. O termo “Povo de Deus” não é tão presente nos textos das Sagradas Escrituras, porém a palavra “Povo” aparece inúmeras vezes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Ao analisarmos a tradução grega, vemos que os tradutores utilizaram o termo “laós” para designar Israel enquanto utilizaram o termo “éthne” quando se referiam aos povos pagãos. Esta mesma diferenciação entre Israel e os povos pagãos encontra-se na tradução hebraica do Antigo Testamento, pois usam o termo “am” para referir-se a Israel e “gojîm” para os povos pagãos. Algumas considerações devem ser feitas:

  1. Os escritores procuraram diferenciar o conceito de povo aplicado a Israel do que era aplicado aos pagãos, principalmente no que diz respeito à relação do povo com Deus;
  2. O termo “am” indica parentesco, ligação tribal por parte de pai. Exprime a comunhão de vida e de destino de um mesmo povo. Daí era normal que compatriotas se chamassem de irmãos, pois eram todos filhos do mesmo pai;
  3. Havia uma comunhão do povo em torno de um centro divino;
  4. Essa união dizia respeito a duas grandezas: filiação divina e fraternidade, ambas características do Reino de Deus.

Há, pois, uma ligação entre o Povo de Deus do Antigo Testamento e o povo da Nova Aliança do Novo Testamento. Essa ligação é demonstrada pelos seguintes fatos: (1) sempre que se fala no “Povo de Deus” da Nova Aliança, são usadas passagens do Antigo Testamento e (2) sempre é usado o termo “laós” para se referir ao povo neotestamentário. A Igreja do Novo Testamento é vista como o cumprimento das promessas feitas à Israel no Antigo Testamento,  novo “Povo de Deus”: a Nova Aliança, instituída por Jesus Cristo, é o novo Povo de Deus (cf. LG 9).

CARACTERÍSTICAS DA IGREJA DA NOVA ALIANÇA

A Nova Aliança possui três características:

  1. O enraizamento da Igreja no Antigo Testamento;
  2. A novidade radical em Jesus Cristo; e
  3. A sua abertura para todas as pessoas, tanto judeus quanto gentios.

Esse novo povo passa a ter novas formas de celebração que evoluíram com o tempo, o que levou gradualmente a uma total separação dos judeus por parte desse grupo liderado pelos Apóstolos. Houve uma mudança na formação do povo cristão e essa mudança passou por etapas, que são:

  1. Igreja formada só por judeus;
  2. Igreja formada por judeus e gentios; e
  3. Igreja formada só por gentios.

Nota-se que não havia distinção entre judeu ou pagão. Só não eram aceitos como membros da comunidade aqueles que expressamente não queriam fazer parte dela. Este Povo passou a representar todas as nações, pois foi tirado de dentro delas e estava aberto a todas elas.

O DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA DE IGREJA COMO “POVO DE DEUS”

Os primeiro padres da Igreja não faziam conexão entre o Povo de Deus da Nova Aliança com o Antigo Testamento, apesar das evidências bíblicas:

  1. Os judeus, tal qual Esaú, teriam perdido o direito de primogenitura;
  2. Os justos do Antigo Testamento eram vistos como pré-cristãos, que se salvaram mediante a sua fé e não por meio de Israel, que passa a ser visto como povo rejeitado; e
  3. Santo Agostinho disse que houve a passagem do povo histórico para o povo espiritual, ignorando qualquer ligação que existisse entre os cristão e o povo veterotestamentário.

Houve com o tempo a mudança do conceito de “Povo de Deus” para o âmbito jurídico-romano, englobando todos aqueles que faziam parte do Império Romano. Houve nessa época um desenvolvimento hierárquico na Igreja, formando-se uma visão do povo como leigo frente aos bispos. A visão de Igreja de Cristo como continuidade histórica do povo do Antigo Testamento foi aos poucos se perdendo. Não se conseguia mais enxergar o Novo Testamento como continuidade do Antigo. Essa visão começou a ser revivida a partir do século XIX, com o desenvolvimento da visão de Igreja como Corpo Místico de Cristo.

Foi então que, após a Primeira Guerra Mundial, a Igreja passou a ser vista como rocha de Salvação. Houve a redescoberta da figura de Igreja como Povo de Deus a partir do surgimento da nova visão do sacerdócio universal dos batizados. Dessa forma antes de serem bispos ou leigos, todos estão unidos pelo Batismo formando um único povo onde seus membros são todos filhos adotivos de Deus. Newman fala da união dos cristãos com Cristo, que os leva a ter forças para conservar a reta doutrina. Passa-se a criticar a imagem da Igreja como Corpo Místico de Cristo e a vê-la como Povo de Deus (elemento histórico-salvífico). Nesse período a teologia protestante passa a desenvolver seu conceito de Povo de Deus e fala de uma Igreja histórica visível na qual está presente uma Igreja invisível como Reino de Deus no Reino de Cristo.

Toda essa alteração na visão de Igreja confirma o caráter de mistério da mesma. Não há como se ter uma definição lógica para ela. A visão de Igreja como Povo de Deus é apenas uma das várias interpretações existentes, exprimindo um caráter histórico, uma ligação entre Igreja da Antiga e da Nova Aliança.

CARÁTER ESCATOLÓGICO DO POVO DE DEUS

A Igreja é a consumação final da aliança com o Povo de Deus, enquanto sacramento universal de salvação. Ela realiza um importante papel no desenvolvimento histórico da humanidade, antecipando aqui neste mundo a cidade celeste que se dará no céu. O Povo de Deus forma a Igreja Militante que é aquele que está em marcha rumo à glória que se dará na consumação dos tempos.

Um caráter importante relacionado com a imagem de Povo de Deus é a eleição.  Assim como Israel foi o povo eleito do Antigo Testamento – “Não é porque sois mais numerosos que todos os outros povos que o Senhor se uniu a vós e vos escolheu; ao contrário, sois o menor de todos. Mas o Senhor ama-vos e quer guardar o juramento que fez a vossos pais. Por isso a sua mão poderosa tirou-vos da casa da servidão, e livrou-vos do poder do faraó, rei do Egito” (Dt 7,7-8) –, Paulo caracteriza os cristãos como “Assembléia dos chamados”.

Eleição e salvação são duas realidades sucessivas. A salvação parte da vontade e da misericórdia de Deus. Ela se apresenta sempre sob duas faces: a opressão e a libertação. Essa salvação foi realizada por Jesus Cristo na Sua morte de cruz, entregando ao Pai a Igreja pelo Seu sangue. Para que essa tenha efeito, deve haver por parte das pessoas uma participação na vida e na intimidade de Deus. O Povo de Deus é um povo peregrino, que segue rumo à salvação prometida por Deus (cf. Hb 13,14). Em resumo, o Povo de Deus é um povo universal, histórico, unido por uma fé sobrenatural, guiado pelo Sagrado Magistério da Igreja.

A IGREJA E O REINO DE DEUS

A Igreja e o Reino de Deus não se confundem. A Igreja vem para continuar a missão de Jesus Cristo de anunciar a vinda do Reino e de construí-lo, como sinal, aqui na Terra, pois este Reino só será concretizado no fim dos tempos. Não há como compreender a história do Povo de Deus se não se tem uma visão da plenitude celeste dessa idéia, assim como não há como entender a preocupação escatológica se não se entende a realidade histórico-salvífica desse povo.

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