Continuando os nossos estudos sobre o nosso grande líder, sucessor de São Pedro, o Papa, Diego Galvão traz em seu segundo texto um breve histórico de como se deu a sucessão daqueles que assumiram o trono petrino, explicando os testemunhos dos primeiros cristãos atestando a autoridade do Bispo de  Roma sobre a Igreja de Cristo e como eram escolhidos esses grandes homens ao longo da história. Boa leitura!

Servos dos Servos

 Diego Souza Galvão de Melo.

Desde sempre, o Papa, Sucessor de São Pedro, foi considerado como sendo o chefe de todos os bispos! Nos três primeiros séculos da era cristã, devido às perseguições a que se exporiam, poucas vezes os bispos de Roma manifestaram o primado (liderança, supremacia) de que eram dotados. Contudo, um grande testemunho do primado na “era das perseguições” nos é dado pelo 4º papa da história da Igreja, São Clemente I (88-97). Sua carta aos coríntios é conhecida como “epifania do primado romano” e, tida como o primeiro documento papal, atesta a autoridade da Sé petrina sobre as outras igrejas de origem apostólica (todas, até então pertencentes a Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja de Cristo). Enviada à Igreja de Corinto, que estava dividida internamente por um cisma, devido à contestação da autoridade dos presbíteros por um grupo de fiéis, São Clemente afirma que “Se algum homem desobedecer às palavras que Deus pronunciou através de nós, saibam que esse tal terá cometido uma grave transgressão, e se terá posto em grave perigo”. Ainda, o Papa incita os coríntios a “obedecer às coisas escritas por nós através do Espírito Santo” (São Clemente, Epístola aos Coríntios).

A autoridade suprema do Sucessor de São Pedro foi, em todos os tempos, reconhecida por clérigos e fiéis, como provam muitos testemunhos, dentre os quais o de São Pedro Crisólogo (+450 ou 451), que falou: “Exorto-vos, veneráveis irmãos, a receber com docilidade os escritos do Santo Papa da cidade de Roma, porque Pedro, sempre presente na sua sede, oferece a fé verdadeira aos que a procuram”. Também como exemplo, podemos citar as palavras de São Jerônimo (+420) que, para encerrar os desentendimentos que afligiam o Oriente, escreveu a São Dâmaso, 37º papa: “Julguei que devia consultar a esse respeito a cadeira de Pedro e a fé Apostólica, pois só em vós está ao abrigo da corrupção o legado de nossos pais”.

Como, contudo, eram escolhidos os Papas? A maneira de se eleger o sumo-pontífice variou ao longo dos séculos, isso é inegável. Na Antiguidade, o clero da cidade de Roma designava um candidato e submetia a escolha ao assentimento dos leigos; os bispos vizinhos também participavam, ao que parece confirmando a escolha. No decorrer da história, contudo, nem sempre as coisas funcionaram como deveriam. Após a fundação dos Estados da Igreja, por exemplo, o papa tornou-se também príncipe temporal (com poderes seculares, materiais), fato que levou certas famílias nobres de Roma a ambicionarem o cargo para determinado ente querido, sem que tais estivessem à altura de tão elevado posto. No início do século XI (também para exemplificar), João Crescênio, patrício, com grande influência fez eleger três papas; em seguida, os Condes de Túsculo também fizeram com que três membros de sua família fossem eleitos.

Contudo, sacerdotes de Roma, os quais deveriam primitivamente constituir o presbitério pontifício (aqueles que, juntos com o Papa, eram responsáveis por determinar as leis da Igreja), aos poucos foram formando um senado, e passaram a ser chamados de “cardeais”, em virtude de serem, principalmente, os que participavam dos ofícios religiosos celebrados pelo sumo-pontífice. O Santo Padre Nicolau II (1058-1061), tornou-os responsáveis pela eleição dos papas, e a partir do século XIII tiveram prioridade sobre bispos, arcebispos e patriarcas. O Papa Inocêncio IV (1243-1254) lhes deu por emblema o chapéu vermelho, ao passo que Urbano VIII (1623-1644), atribuiu-lhes o título de “Eminência”.

A eleição de um novo papa, feita pelos membros do Colégio Cardinalício, os cardeais, é realizada através do famoso “Conclave”, termo latino que significa “com chave”, o qual não pode começar antes de quinze dias nem depois de vinte dias após a morte de um papa, e enquanto perdurar, os cardeais ficam proibidos de ler jornais ou outros periódicos, ouvir rádio e assistir televisão, para evitar pressões da opinião pública. No citado intervalo de quinze a vinte dias, os cardeais não podem discutir, nem mesmo entre si, sobre a sucessão papal. Aqueles que tiverem completado oitenta anos antes do dia da morte do Sucessor de Pedro ou da vacância da Sé Apostólica, não poderão votar, e o número máximo de cardeais eleitores não pode ultrapassar cento e vinte. Depois de cada rodada de votação no conclave, os votos são queimados e a fumaça expelida por uma chaminé no telhado da Capela Sistina pode apresentar duas cores: a negra, que significa que nenhum papa foi eleito, e a branca, que significa que São Pedro tem um novo sucessor, o qual, se ainda não for bispo, antes deverá ser assim ordenado para que então possa ser feito sumo-pontífice! Se dentro do conclave houver tentativa de suborno dos eleitores (a chamada “simonia”), os culpados poderão ser excomungados! Para ser eleito um novo papa, ao menos dois terços dos eleitores devem ter entrado em consenso quanto ao nome.

No artigo anterior já dissemos que o Chefe da Igreja não tinha uma específica denominação, pois também outros bispos eram chamados de “papa” ou “sumo-pontífice”. Passou-se então a se reservar ao Sucessor de Pedro tais designações. São Gregório Magno também acrescentou o título de “Servo dos Servos de Deus”, no sentido de que ele serve aos servos, é serviçal de todos os outros serviçais do Senhor! O primeiro papa a mudar de nome foi Mercúrio, que mudou o nome para João II (533-535), pois Mercúrio era nome de um deus-pagão romano.

Dos 265 pontificados (incluindo o de Bento XVI), os três mais longos foram: em primeiro lugar o de São Pedro, que governou por cerca de 34 ou 37 anos, seguido por Pio IX, que liderou a Igreja por cerca de 31 anos e, em terceiro lugar, vem o reinado de João Paulo II, o qual durou quase 27 anos. Em contrapartida (sem, contudo, que haja consenso nas fontes pesquisadas), Estêvão II, Urbano VII e Bonifácio VI marcaram os três pontificados mais curtos da história da Igreja: o primeiro reinou apenas 3 dias, o segundo 13 dias e o terceiro 16 dias. Ininterruptamente, os 54 primeiros papas foram declarados santos. Bonifácio II, o 55º, quebrou a sequência.

São Gregório Magno

Muitos foram os papas que se destacaram com um pontificado grandioso. Podemos, inclusive, nos alegrar por termos presenciado um dos maiores papas da história: João Paulo II, o nosso querido “João de Deus”. Contudo, Servos dos servos mereceram um título especial: “Magno”, e foram no total de dois, sendo o primeiro São Leão I (440-461) que, tendo sido o 45º Papa, é tido também por doutor da Igreja, e fez chegar até nós 96 Sermões e 173 Cartas. Um de seus grandes feitos foi ter evitado o incêndio de Roma e o morticínio dos que lá habitavam quando o chefe dos Vândalos, Genserico, invadiu a cidade. São Gregório Magno, 64º Papa (590-604), também é tido como doutor da Igreja e, por sua vez, fez chegar a nosso conhecimento 848 Cartas e, dentre outros grandes feitos, podemos citar como exemplos, a promoção da evangelização dos Anglo-Saxões, o trabalho conjunto com a rainha Teodelinda na promoção da paz com os Lombardos e a promoção de uma reforma no canto litúrgico que, de seu nome, veio a denominar-se canto gregoriano!

Normalmente, os conclaves geram expectativas e trazem grandes surpresas. São Pio X (1903-1914), por exemplo, muito pobre que era, tomou dinheiro emprestado para comprar as passagens de trem que o levariam ao conclave que o elegeu papa, tendo as comprado de ida e volta, convencido de que o Espírito Santo não cometeria o “erro” de sugerir ao Colégio cardinalício que o escolhessem como Sucessor de São Pedro. De fato, aqueles que normalmente são tidos como favoritos não são eleitos; com isso, uma frase ficou conhecida na história dos conclaves: “quem entra Papa, sai Cardeal!”. No último conclave, Joseph Ratzinger, braço direito de João Paulo II durante grande parte de seu pontificado, era um dos cotados para a sucessão, mas havia quem achasse sua eleição complicada. A revista VEJA chegou a dizer que sua eleição seria, caso ocorresse, uma grande surpresa e resultada de um conclave particularmente difícil. Em 19 de abril de 2005, apenas no segundo dia do “com chave”, o tradicional “habemus papam” (temos papa) anunciava o fim de uma das eleições mais rápidas da história, na qual Ratzinger tornou-se Bento XVI! Mais uma vez, o Espírito Santo surpreendera a muitos.

Referências Bibliográficas:

  1. MOURA, Jaime Francisco de. As diferenças entre a Igreja Católica e as Igrejas Evangélicas. São José dos Campos, Editora ComDeus, 2005. Pág. 48-49.
  2. SGARBOSSA, Mario e GIOVANNINI, Luigi. Um Santo para cada dia. 11ª Edição. São Paulo, Editora Paulus, 1983. Pág. 249-250, 264 e 339.
  3. OLIVEIRA, P. Miguel de. História da Igreja. 4ª Edição. Lisboa, União Gráfica, 1959. Pág. 48, 69, 92-93, 107-108 e 117.
  4. http://veja.abril.com.br/especiais/papa/p_018.html
  5. http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_dos_pontificados_por_dura%C3%A7%C3%A3o
  6. http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=papa&artigo=20040709163628&lang=bra
  7. http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/juberto/09.htm
Anúncios